Cinema arte ou de entretenimento? Quero os dois!

Compartilhe!

O ano é 1895. Salão Grand Café em Paris.

Os Irmãos Lumière apresentam publicamente sua invenção: o Cinematógrafo. Entre fins de guerras e fundações, 1895 é também um marco para o início da história do Cinema. Seja para retratar e documentar a vida cotidiana ou contar histórias, não demorou muito para que, em 1912 com “Manifesto das Sete Artes”, essa técnica também fosse reconhecida como Arte.

Hoje, 2018, com uma indústria cinematográfica forte e que movimenta bilhões em receita com super produções cheias de efeitos visuais, é possível entreter, levar multidões ao cinema sem causar perda de valor artístico?

Dizer o que é arte, além de ser a resposta de 1 milhão em barras de ouro que valem mais do que dinheiro, entra em campos simbólicos que se modificam ao longo do tempo. E estabelecer o que é arte no cinema, acaba por discutir aspectos estéticos, ideológicos e sociais de forma muito subjetiva. O que é belo para uma pessoa, pode não ser belo para outra, bem como pode não ser belo para essa mesma pessoa alguns anos depois. Assim como um filme que marcou e conversou com toda uma geração, pode nem fazer sentido para a próxima.

Quando falamos de Cinema, estamos falando de uma obra que nasce coletiva, dependente de técnica e reprodução. A reprodutibilidade técnica é uma condição para a obra final existir. E portanto, perde o valor de aura, de obra única que só pode ser vista em um grande e caro museu, mas não perde, necessariamente, o seu valor artístico. Toda essa técnica é empregada como forma de mudar nossa relação com o mundo.

A Arte tem, entre muitas funções, a de ampliar os horizontes simbólicos, as visões de mundo, fazer refletir. Para que essa fruição aconteça no cinema, assim como em qualquer outra manifestação artística, a obra precisa encontrar seu público para então transcender, inspirar, contar uma história, extrapolar e sentir. Tudo isso se faz presente no cinema “arte” e também no cinema “entretenimento”.

Se por um lado o Cinema arte parece estar muito mais ligado a um lugar legítimo de reprodução – relacionado a grandes festivais, premiações e a legitimação de uma crítica e uma elite especializada – do que a obra em si, por outro, o Cinema de entretenimento é instantaneamente colocado em baixas categorias por não habitar esses mesmos espaços. A credibilidade só chega no segundo, se o artista e obra se provarem, antes, no primeiro.

É o que aconteceu com Damien Chazelle. Diretor e roteirista estreante em Hollywood, tinha planos ambiciosos para um projeto que nenhuma produtora quis apostar. Um musical que fazia homenagem aos grandes musicais da MGM, sem músicas conhecidas, a crítica não daria credibilidade e o público não compraria. Chazelle, então apresentou um projeto mais tímido, sobre sua vida como baterista de Jazz. Whiplash (2014) foi nomeado para 136 prêmios, ganhou 89, sendo 3 desses, Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Edição e Melhor Mixagem de Som. Foi somente provando seu valor artístico para a crítica que Chazelle conseguiu credibilidade para produzir o musical, com músicas do seu amigo de faculdade, que ele tanto queria e que chegou a  milhares de cinemas e ao grande público. Chazelle só fez Whiplash (2014) para provar que era capaz de fazer La La Land: Cantando Estações (2016).

Talvez seja mais saudável e proveitoso para a discussão, entender a arte não como algo concreto – esse filme é ou não é arte – e mais como um elemento intrínseco à obra. Artistas especializados, diretores, fotógrafos, continuístas… O cinema é uma grande equipe de pessoas que, com amor e técnica, trabalham juntos para contar uma história. Isso é arte!

Deixe uma resposta