A perigosa arte de contar mentiras.

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Photo by roya ann miller on Unsplash

Era uma vez um jovem pastor que depois de muitas horas de pastoreio, entediado, resolveu pregar uma peça nos moradores da vila onde morava. O jovem gritou “Corram, o lobo está devorando as ovelhas!”, sem demora os homens mais velhos vieram correndo apenas para descobrir que o menino o fizera como gozação. Essa brincadeira do menino se repetiu mais algumas vezes pelos próximos dias e foi aí que tudo deu errado. Certo dia, enquanto o menino pastoreava, um lobo se aproximou e atacou. O jovem desesperado correu para a vila, gritando, pedindo socorro. Ninguém atendeu.

Mentir é algo corriqueiro nas vidas de todos nós. Mentir em certo ponto nos ajuda a manter o convívio harmônico, em outros é a chave para a desestabilização de famílias, amizades, relacionamentos e até mesmo governos. Não nos esqueçamos do curioso caso que levou ao estopim da revolução francesa. Segundo alguns, quando a França passava por forte crise de fome devido a guerras contra a Inglaterra pela manutenção de territórios extra marinos. Quando um membro do governo relatou a situação ao rei Luis XVI e a Rainha Maria Antonieta dizendo que “Não havia pão”, a rainha teria respondido “Se não há pão, que comam brioches”.

Essa fala nunca existiu de fato, porém, devidas às circunstâncias teve força suficiente para desestabilizar um governo que já sofria pelo degaste do poder real feudal. A moral de ambas as histórias pode ser entendida de modo fácil. Mentir é um perigo para nós, a força de uma mentira é incalculável, seus estragos estão além de nossa compreensão no momento em que se mente. Bom, esse não é um artigo moral, aconselhando jovens desatentos, é uma análise, ainda que rápida e pouco aprofundada de algo que tem trazido problemas, estou me referindo ao fenômeno da Fake News (notícia falsa).

Anos atrás a responsabilidade pela produção de notícias era missão de um grupo específico de profissionais, os jornalistas. Não que não houvesse produção de notícias falsas, mas a rastreabilidade era mais fácil, portanto era mais simples chegar ao escritor da matéria e confrontá-lo. Hoje, com a internet o cenário se complicou. Uma notícia falsa se espalha muito rápido, primeiramente pela própria característica da internet e segundo porque as pessoas estão compartilhando informações sem o crivo necessário.

Estamos vivendo uma época turbulenta do ponto de vista político, não apenas no Brasil, mas também no mundo. A impressão que se tem ao ler postagens em redes sociais é a de que as sociedades estão fragmentadas em grupos ideologicamente enviesados. Se pensarmos recentemente nas eleições dos Estados Unidos, no fenômeno Brexit e no cenário político envolvendo a falta de diálogo entre grupos políticos de esquerda e de direita, agravado pelo resultado de impedimento da ex presidente Dilma veremos que todos esses fatos estão recheados de notícias falsas. E por que isso acontece?

Se observarmos as ideias de Kunczik, veremos que o comunicador tem o poder de influenciar o processo de construção do entendimento sobre algo que aquele indivíduo esteja observando. Por exemplo, imagine que você é uma pessoa mais velha ou que teve pouco acesso ao ensino formal e aí, num determinado dia, você procure no Google a seguinte questão “que forma a terra tem?”, em seguida uma série de fotos aparecem. Numa delas que um cientista comprovou que a terra não é esférica e sim plana. Você compartilha essa informação com amigos, que compartilham com outros e ao chegar no final do dia milhões de pessoas leram aquela reportagem.

Pode parecer esdrúxula essa situação que relatei acima, contudo podemos destruir a carreira de pessoas, relacionamentos, partidos políticos propagando mentiras. E porque as pessoas acreditam e compartilham? Existem três razões principais, a primeira é ignorância e falta de tato em trabalhar com meios digitais, a segunda por preguiça de verificar a veracidade de algo, a terceira por convicção, ou seja, quando a notícia falsa favorece aquilo em que eu acredito, eu a passo para frente apenas para que minha crença vença, veja que perigoso uma notícia falsa é em um ambiente político como o nosso.

Instituições estáveis dependem de um ambiente estável para se desenvolverem. A busca por uma comunicação limpa, organizada e sobretudo verdadeira é um ponto fundamental para a construção de sociedades mais democráticas. Não basta termos a nossa disposição uma imprensa que é livre, o que é extremamente importante, o fundamental passa por nós e pela disposição de cada um em coibir o que se sabe falso, ou ao menos indicando aquilo que não se tem certeza.

Se a verdade não nos agrada por nossas posições ideológicas, paciência. É difícil vermos que um político em quem sempre acreditamos é capaz de mentir, é triste ver que uma pessoa não corresponde com o que idealizamos dela. Desiludir-se é bom. Quem se desiludiu deixou de ser cego e aqui relembro a cegueira descrita por Saramago em seu livro “Ensaio sobre a cegueira” e indico as pessoas que assistam ao filme Brasileiro “Aos teus Olhos” em que o professor de natação Rubens (Daniel de Oliveira) tem a vida destruída em 24 horas por um boato de assédio infantil.
Por fim, antes de repassar uma notícia leia, verifique a data, o autor e o veículo que a publica, veja se ele tem credibilidade. Pesquise se a mesma notícia está em outros veículos ou se ela já foi desmentida. Se restar dúvida pergunte a um especialista. Se deixarmos que nossas crenças sejam asseveradas por mentiras, deixaremos de ser militantes para nos tornarmos maquiavélicos no pior que isso possa significar, deixando que “os fins justifiquem os meios”.

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