Tropicalia: 50 anos do disco que marcou a contracultura brasileira.

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Capa por Rubens Gerchman. Foto de Oliver Perroy.

Era década de 60: o mundo vivenciava o auge da guerra fria e o Brasil sofria as consequências de uma ditadura militar. O movimento hippie e sua contracultura explodia entre os jovens, e a música aclamava por amor e paz.

É nesse contexto que nasceu o disco que escolhi para a nossa estreia: Tropicalia ou Panis et Circencis.

Ali em meados de 1967, surgia o movimento tropicalista encabeçado por dois cantores baianos iniciantes na carreira musical: Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Influenciados pelo rock dos anos 60 (Beatles, Janis Joplin, Jimi Hendrix…), o cinema novo de Glauber Rocha e a contracultura, Caetano e Gil queriam trazer para a música brasileira, toda aquela crítica, estética e atitude. Misturar a MPB com as guitarras elétricas do rock, a crueza do cinema nova e falar sobre o próprio Brasil, resultando em um som novo e diferente.

Em meio há passeatas contra a guitarra, vaias do público conservador nos festivais e críticas pesadas dos nacionalistas, o albúm veio a vida.

Lançado pela Philips em julho de 1968 em LP, produzido por Manoel Barenbin, o disco continha os principais nomes envolvidos no movimento: Caetano, Gil, Os Mutantes, Gal Costa, Tom Zé e Nara Leão. Os arranjos ficaram por conta de Rogério Duprat e a capa pelo artista plástico Rubens Gerchman e a foto de Oliver Perroy.

Na composição da imagem, os músicos aparecem com semblantes sérios, satirizando às fotografias de famílias tradicionais e conservadoras.

As guitarras dos Mutantes se destacam, assim como o penico tomando função de xícara, fazendo referência a arte moderna de Duchamp. Gil vestido num estilo bem hippie, com cores fortes e tropicais. Tom Zé de terno e mala, representando a cultura do povo nordestino que migravam para os grandes centros brasileiros, finalizando com as cores da nossa bandeira adornando a capa.

É o contraste daquela nova estética, da contracultura, da brasilidade com o tradicional, conservador e nacionalista. Uma imagem que traduz muito bem o conteúdo de suas músicas.

No disco temos 12 faixas que misturam as guitarras “gringas” dos Mutantes – que trouxeram sua sonoridade futurística para o álbum – com o som brasileiro da MPB, sintetizadores e letras cheias de referências a cultura brasileira, críticas aos conservadores e a ditadura militar, tornando-o um dos marcos na cultura do país.

3 MÚSICAS PARA PRESTAR ATENÇÃO

Todo disco tem algumas músicas que se destacam e captam bem a essência do álbum. Foi difícil escolher, mas separei três músicas que merecem ganhar aquela atenção especial na sua audição!

– Panis Et Circences

(Caetano Veloso e Gilberto Gil)

Interpretada pelos Mutantes, a letra é sobre aquela típica família tradicional, que assiste ao mundo desmoronar, sentados na sala de jantar presos nos seus próprios mundinhos. Acho que de lá para cá não se mudou muita coisa, não é mesmo?

Carregada de guitarras, sintetizadores, um baixo elétrico e trompetes, a canção vai se desconstruindo e ganha um outro ritmo, que vai acelerando conforme vai chegando ao fim.

– Geleia Geral

(Giberto Gil e Torquato Neto)

Interpretada por Gil, a letras faz citações a cultura brasileira e até estrangeira, como bumba meu boi, portela e Sinatra. Com a guitarra fazendo presença, junto com sopro, clarinete, trompetes e trombones, trazendo um ritmo parecido com um baião.

– Bat Macumba

(Gilberto Gil)

Tem uma sonoridade que faz referência a músicas e a religiões africanas com os seus tambores e sua letra.

No decorrer da música, a letra vai se desintegrando, e depois vai se reconstruindo de novo. Como uma brincadeira de criança.

Uma das curiosidades da música é que o Gil canta um “Batman” ali no meio, um forte símbolo da cultura norte americana. Intencional ou não, provavelmente não deve ter agradado aos nacionalistas de plantão da época.

Prestes a completar 50 anos, Tropicalia ou Panis et Circencis continua sendo um dos discos mais influentes da cultura brasileira, ou melhor, da nossa contracultura. Apesar de quase meio século, sua sonoridade ainda reflete a riqueza da cultura brasileira e suas letras conseguem refletir o atual cenário do nosso país.

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