O PRAZER VOYEUR DO CINEMA

A palavra voyeur tem origem francesa e seu significado se aproxima de algo como “aquele que vê”. Aquela pessoa que gosta apenas de observar e não participa da ação. Dentro da psicologia freudiana, voyeur está ligado a um instinto escopofílico e a sua prática, voyeurismo, se refere à uma gratificação erótica em observar alguém sem ser notado.

O voyeurismo é retratado, de forma escancarada ou no subtexto, aqui e ali em alguns filmes que rendem grandes e acaloradas discussões em cursos de psicologia. Filmes como O Show the Truman (1998), Beleza Americana (1999) e o grande clássico de Hitchcok, Janela Indiscreta (1954), são objetos de estudos frequentemente usados para se trabalhar o tema. Afinal, o cinema também é uma ferramenta que nos ajuda a entender mais sobre nós mesmos.

Que o fotográfo do filme Janela Indiscreta é um voyeur, é bastante simples e tátil de afirmar. Todos os traços que conhecemos estão ali e são facilmente reconhecidos. Assim como nos expectadores do Show de Truman. Mas a pergunta que fica é: se quando vamos ao cinema, estamos também nesta posição, o que nos diferencia dessas personagens?

O cinema se estrutura basicamente a partir de três diferentes olhares sobre o filme. O primeiro diz respeito ao olhar da câmera, ou seja, aquele primeiro olhar, que captura e direciona as ações para contar uma história. Já o segundo, corresponde ao olhar dentro da narrativa, que conduz e dá sentido à narrativa. E por fim, o olhar do espectador que está assistindo o filme. Somando esses processos, o cinema torna-se uma grande janela e até uma sedutora fechadura, que nos convida a dar uma espiadinha e nos deliciar com os acontecimentos em tela.

O prazer no cinema, seja ele físico, estético ou sinestésico, se baseia e é criado a partir de um mecanismo voyeur que é praticamente inerente a esta forma de arte.

E não estamos sozinhos. Entramos em uma sala escura, de clima agradável, com dezenas de outros indivíduos desconhecidos, excitados e  dispostos a se entregarem àquele momento tanto quanto você. Prazer quase erótico é o sentimento que descreve toda essa atmosfera.

O filme nos convoca a olhar e nos coloca no olhar outro. O olhar sem corpo, mas que observa o desenrolar da narrativa e não deixa nenhum detalhe escapar. Estamos ali na posição de observador em relação ao objeto-sujeito, espiando atrás da quarta parede – aquela entre a ação que está acontecendo na tela e o expectador.

A sensação de acompanhar as loucuras e aventuras das personagens em tela que, em vidas normais e reais dificilmente aconteceriam, nos transportam a um lugar de prazer. Confortáveis da poltrona e com a pipoquinha na mão, experimentamos um mundo e o mundo, que ao sair do cinema, as consequências, seja eles quais forem, ficam. E o que sai é a máxima do prazer e da liberdade de experimentação.

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