Brasil, o país do futebol

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Fonte: Ari Ferreira/ Divulgação RB Brasil.

Quando pensamos em quantos países existem no mundo, podemos nos assustar com a quantidade de nomes e referências que um simples pensamento pode nos provocar! Quantas referências existem entrelaçadas junto à história de cada nação que hoje existe? Esse questionamento parece tornar-se mais nítido quando grandes eventos esportivos são televisionados.

Um exemplo de um grande evento é a Copa do Mundo de Futebol da FIFA. Em campo jogam não apenas o atacante, o artilheiro, o meia, dentre outros. Jogam também a história e a característica de cada povo ali representado. Você pode me questionar dizendo que não há nada de cultural em um jogo de futebol, eu, no entanto, terei que desestimulá-lo a pensar dessa forma.

Geertz foi um antropólogo Norte Americano adepto ao paradigma interpretativista fundado por Weber. Para ele, cultura pode ser entendida como uma teia de significados que são compartilhados por pessoas que fazem parte de um determinado grupo. O que nos distingue dos outros é o significado que damos aos signos presentes nessa teia. Cada um desses significados é criado e transformado coletivamente ao longo do tempo.

Por isso podemos observar com facilidade a diferença existente entre grupos, entre regiões, povos e nações. Um mesmo símbolo pode ser apreciado de modos diferentes, produzindo leituras sobre a vida de formas muito distintas. Vejamos o exemplo da sacralidade das vacas na índia em comparação ao amor brasileiro ao churrasco feito com carne vermelha.

Diversas variáveis sociais nos fizeram assimilar a vaca como uma forma de alimentação, enquanto na Índia outras variáveis deram ao animal caráter de uso religioso. Portanto, quando observamos práticas de grupos em uma sociedade estamos, justamente, captando aspectos simbólicos que à primeira vista passam despercebidos. Isso também acontece com o futebol.

Se relembrarmos a história do Brasil poderemos reconstruir um passado de desigualdades. A colonização deixou marcas profundas na sociedade brasileira, indígenas, negros escravizados e descendentes de colonos viveram sobre a ótica de uma mestiçagem que não unia, mas afastava. Freyre (2003) mostra a relação entre a casa grande a senzala marcada pela diferenciação social e pela desigualdade.

Com a independência do Brasil em 1822 foi necessário pensar o Brasil como um projeto integrado, já que o território poderia se esfacelar devido a divergências locais. Surge então a necessidade de unificar a nação como um projeto político por meio da cultura.

Diversos governos tentaram criar, por vias diferentes, a noção de uma nação patriótica e integrada, foi durante a ditadura militar que o futebol foi utilizado para a criação de uma ideologia de união. Como explicam Gomes e Said (2015, p. 8):

Com a popularização do futebol houve reconhecimento desse esporte que possuía grande apelo popular, juntava o povo em torno de um time ou seleção realmente “nacional”. Antes da descoberta futebolística do Brasil o país era dividido entre os símbolos cívicos como o hino, a bandeira e o nacionalismo que surgiram na modernidade ou entre as belezas naturais, a música e as tradições que reiteravam o cotidiano do brasileiro. Foi o futebol que juntou hino e povo (Damatta, 2006, p. 111), o esporte popularizou a ideia de nação que pertence a todos, desde o pobre que mora do subúrbio das grandes cidades até os “doutores” que ocupam altos cargos.

Se por um lado o futebol foi usado como ferramenta de propaganda do regime, de outro possibilitou o nascimento de uma estrutura de identificação social que possibilitou em diversos momentos a união de pessoas em torno de um objetivo. Não podemos esquecer do movimento denominado “Democracia Corinthiana”, nascido em meio a ditadura militar como uma jogada de marketing e que depois acabou por se tornar um movimento de caráter popular em prol da redemocratização.

Criticar o futebol como uma política de pão e circo é reducionismo que não se justifica e que deixa transparecer a crítica preguiçosa que alguns fazem à situação política que o país vive não hoje, mas há muito tempo. Futebol é uma parcela da nossa cultura, um traço forte que é capaz de projetar mudanças positivas para o futuro. Quantas histórias de superação são contadas pelo futebol? Quantas crianças deixaram de viver na rua? Quantas lutas são travadas diariamente contra o machismo e a intolerância? Quanto ultimamente tem se discutido sobre a ética no esporte e na sociedade?

É possível agir de modo crítico e consumir esporte sem sombra de dúvida. Não nos esqueçamos que no campo das sociedades os símbolos são lidos e transmutados pelo coletivo daqueles que ali estão compartilhando vivências. Projetar o futuro é dever dessas pessoas e porque o futebol nos atrapalharia? Pense sobre isso e deixe de repetir velhas desculpas para a acomodação de uma nação.

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